WALDEN GUITARS
Sonho americano fabricado na China

Por Daniel Neves e Miguel De Laet
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Violões chineses são todos iguais? Tome cuidado com a resposta. Muitos possuem preconceitos em relação a produtos oriundos de países asiáticos sem, no entanto, conferir os mesmos. A revista Violão PRO conversou com Jonathan Lee, um dos responsáveis pelo desenvolvimento dos violões Walden, sobre o processo de desenvolvimento e fabricação de violões em uma indústria asiática, as razões de se fabricar na China e sobre responsabilidade ambiental e social.

A FÁBRICA
Fale um pouco sobre você e como nasceu a Walden Guitars.

Sou, atualmente, o gerente da divisão de instrumentos de cordas da KHS, fabricante taiwanesa de instrumentos musicais com mais de 75 anos. É proprietária da marca Walden e produz os seus violões em Lilan, China (bem próximo de Pequim). Todos os violões Walden são feitos em uma fábrica própria. Antes de me tornar o gerente de divisão, era o gerente de pesquisa e desenvolvimento, assim como diretor de marketing. Os violões Walden nasceram de uma parceria entre a CFox, empresa que ajudei a fundar, e a KHS. Os projetos originais e as especifi cações foram criadas sob consultoria da CFox.

Por que fabricar violões na China?

Há muitas razões para construir violões na China. Foi uma escolha natural para a Walden. Com média de salários mais baixos do que em outra parte, permite a criação de um instrumento de alto padrão com menor custo. A história chinesa tem uma tradição cultural e artística rica e profunda que igualmente ajuda na sua habilidade de estar atenta a detalhes na confecção dos violões. A KHS está sediada em Taipei, Taiwan. Como todo o seu pessoal fala chinês, as barreiras culturais e do idioma foram superadas, minimizando problemas que poderíamos encontrar com o funcionamento de uma fábrica na China. Além disso, facilita a distribuição internacional em conjunto de outras marcas da KHS: Mapex Drums, instrumentos Jupiter, Hercules Stands e Majestic Percussion. Todas as fábricas da KHS são próximas e isso permite que os produtos da KHS sejam combinados para ser expedidos em conjunto, servindo melhor às necessidades de nossos clientes. Hoje, por ano, são fabricados algo em torno de 50 mil instrumentos.

MERCADO Como associar qualidade e preço?

Com um background de produção de violões artesanais, encontrar o ponto de equilíbrio entre a qualidade e o preço foi um dos grandes desafi os para mim. Ao construir violões que são vendidos em torno de 3 mil dólares americanos ou mais, poderia ter recursos para trabalhar com madeiras que ofereciam tonalidade ideal e o mais elevado nível no que diz respeito ao visual e à estabilidade. Madeiras com cortes perfeitos, cada parte selecionada manualmente. Fornecer instrumentos a preços competitivos pode provocar numerosos confl itos com a Walden do ponto de vista de um luthier. Quando se trabalha com instrumentos que custam de 300 a 1.500 dólares, não é apenas o custo de mão de obra, mas também a relação custobenefício da matéria-prima. Um bom exemplo para ilustrar isso: quando fazia instrumentos artesanais, o custo de um tampo em Sitka Spruce e o fundo em jacarandá indiano, ainda não trabalhados, já era bem acima do preço do nosso distribuidor para alguns modelos acabados da Walden! O preço de algumas tarraxas que usávamos nos CFox era maior do que o custo de um Walden acabado. Como você cria um violão próximo de um violão artesanal quando não pode ter recursos para os materiais exigidos para fazer um instrumento desse tipo? Nós e outros fabricantes asiáticos simplesmente não temos recursos para usar esses materiais e temos de trabalhar com matéria-prima de qualidade inferior, de baixo custo. O desafi o transforma-se então em assegurar que os materiais usados possam satisfazer em termos sonoros, visuais e em estabilidade tonal para criar bons instrumentos musicais. O que pode ser sacrifi cado? O que pode ser comprometido? O que não pode? Onde está o limite do que é aceitável e do que não é? Essas são perguntas difíceis de responder em nossa busca para criar instrumentos musicais legítimos e não apenas ‘objetos com forma de violão’.

PROCESSO DE FABRICAÇÃO
Fale sobre o processo de manufatura da Walden.

Todo instrumento de qualidade é fabricado por meio de processos similares para conseguir objetivos similares, sejam eles produzidos em uma ofi cina de luthieria ou em fábricas de grande escala. O processo de manufatura da Walden reproduz especifi camente a minha experiência como um luthier da CFox, somada às técnicas usadas nas fábricas de grande produção dos EUA, como Martin e Taylor. Nosso principal fi o condutor é respeitar os elementos do processo de construção do violão que são essenciais na produção de instrumentos com estabilidade e sonoridade excelentes, sabendo que não podemos comprometer a qualidade de forma alguma e também o que devemos criar em instrumentos nesta faixa de preço. Em nossos quatro grandes departamentos — fabricação das partes, junção corpo-braço, acabamento e setup —, cada processo tem seu próprio gabarito, máquina de fi xação ou molde que asseguram a consistência do resultado. A maior parte do trabalho é feita manualmente, com as máquinas padrão conhecidas na marcenaria, tais como serras, grampos, barras rosqueadas, entre outras. Algumas máquinas automatizadas são usadas para proporcionar um resultado mais preciso, como uma máquina de entalho da escala, ou quando uma operação é muito pesada para um empregado.

Este processo é diferente do que é feito em empresas asiáticas?

Se olhar a história da confecção de violões asiáticos, você verá que a maioria das fábricas atuais remete aos métodos japoneses dos anos 60, quando produziam essencialmente alternativas de baixo custo de instrumentos fabricados nos EUA e na Europa. Quando os custos de mão de obra aumentaram no Japão, esse sistema de construção de violões mudou para a Coreia e Taiwan, mais tarde para a China e agora para a Indonésia. Muitas indústrias asiáticas ainda fazem ‘objetos com forma de violão’. Isso se deve a uma falta da compreensão dos fundamentos do projeto ou da fabricação do violão, ou devido ao modelo comercial de produzir instrumentos pensando no que é mais barato possível, que leva em consideração a escolha de materiais ou de métodos ruins. De um ponto de vista do produto, fora as diferenças processuais, todos os violões da Walden possuem um braço com tensor de ação dupla que não é comum na fabricação asiática. As extremidades dos trastes são arredondadas e lustradas acima dos padrões considerados, mesmo na Martin. A Walden Natura é a única linha de instrumentos com acabamento em verniz nitrocelulose, que vem sendo reconhecido pelas suas propriedades sonoras excelentes comparadas ao poliuretano, acabamento mais comum usado na Ásia.

Quais são as madeiras mais utilizadas na manufatura dos violões Walden?

A Walden atualmente usa somente o que são consideradas madeiras ‘tradicionais’ para violão. Variedades de abeto (Sitka e Engelmann), cedro vermelho ocidental. As madeiras de fundo e laterais são jacarandá indiano ou mogno originários da África ou das Américas do Sul e Central. As escalas e as pontes são de jacarandá indiano

VIOLÕES ARTESANAIS X INDÚSTRIA
No Brasil há luthiers que procuram alternativas em outras espécies para substituir madeiras tradicionais na manufatura de instrumentos. Isso pode ocorrer na indústria?

Uma difi culdade se apresenta quando pensamos na estabilidade e na sonoridade. As madeiras tradicionais usadas foram escolhidas por essas razões. Escolher madeiras de remanejamento, com base apenas no fato de serem materiais de uso sustentável, simplesmente não funciona. Um bom exemplo vem das experiências que conduzimos usando o bambu: é usado para o refl orestamento, é duro e cresce como uma erva daninha. Entretanto, em nossos testes, teve uma entonação horrível. Um corpo criado de bambu soa morto, como a batida em uma caixa de papelão. Sendo assim, estamos observando atentamente materiais de remanejamento que estão fora da lista de madeiras tradicionais e podem ser explorados de maneira sustentável.

Fale especifi camente da série de violões clássicos inspirados nos grandes modelos criados por Torres e Hauser I. Como surgiu a ideia de reproduzir a estrutura harmônica de Torres/Hauser?

Em 2004, na convenção americana de luthiers no Estado de Washington, estive em um seminário apresentado pelo luthier Jeffrey Elliot. O tópico: Restaurando o Torres de Tárrega 1888. Este violão tinha sido gravemente danifi cado e foi restaurado de forma brilhante por Jeff. Ele apresentou plantas e as medidas para ilustrar a parte histórica e tivemos o privilégio de ouvir uma audição com o instrumento naquela noite. Na verdade, isso me inspirou. Assim, comecei a pensar em ajustes que poderíamos fazer no modelo clássico da Walden. Tive também a oportunidade de rever desenhos de dois violões construídos para Andrés Segovia: o Manuel Ramirez de 1912 e o Hermann Hauser I de 1937. Como um pintor que pratica as técnicas dos mestres, decidi que este era o lugar para começar o desenvolvimento e a melhoria do violão clássico da Walden.

É fato: todo violão clássico construído ao redor do mundo é baseado no violão de Torres, mas com algumas alterações na sua estrutura harmônica, no tampo. Há muitas alterações nas dimensões e ângulos? Este é realmente o tópico mais importante na defi nição do som e entonação do instrumento?

O tampo é o elemento mais importante que contribui para o som do violão. No tampo, temos os graves. As várias vibrações das laterais e do fundo infl uenciam a qualidade tonal da voz do violão, particularmente as frequências mais altas/harmônicos mais elevados, mas quando é muito ‘fl exível’, eles podem sugar a energia da parte superior e afetar negativamente o som e a entonação. A estrutura harmônica do tampo do modelo clássico da Walden permanece completamente fi el aos projetos de Torres/Hauser. As pequenas modifi cações incluem o uso de uma placa da ponte que não era usada por Torres em 1888, mas era utilizada nos Hauser de 1937. Em termos de construção da entonação e do som de um instrumento, as dimensões e os ângulos da estrutura harmônica são somente uma parte do enigma. O Torres 1888 teve as espessuras do tampo tão baixas como 1,2 milímetro na borda e 1,5–2,0 milímetros sob a ponte — isso é surpreendente quando você considera que um tampo típico tem aproximadamente 2,5–2,8 milímetros. A maneira de conseguir isso é encontrar materiais excepcionais, características altas de rigidez/peso, que permitem que se afi ne a parte superior sem perder a rigidez para resistir à tensão das cordas. Com esse baixo peso, as cordas não precisam trabalhar muito para estimular a vibração da parte superior: a energia é representada como o som.